TRIÊNIO DA JUVENTUDE 2017-2020

Triênio da Juventude: Jovem quero ficar em tua casa! (cfr. Lc 19, 5)

 1º Ano do triênio pastoral 2017-2018: A JUVENTUDE E A FÉ RECEBIDA

TEXTO BÍBLICO

«E, tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia lá um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe dos publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas não o conseguia por causa da multidão, pois era de baixa estatura. Correu então à frente e subiu num sicômoro para ver Jesus que passaria por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois devo ficar em tua casa”. Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria. À vista do acontecido, todos murmuravam, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de pecador!”. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo”. Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”» (Lc 19, 1-10).

INTRODUÇÃO

Nossa intenção

Amados irmãos e irmãs em Cristo, filhas e filhos caríssimos no Senhor! Nós, vossos Bispos, obedientes ao mandamento do Divino Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo, sentimos oportuno e urgente falar-vos dos jovens e falar, particularmente, aos jovens de Angola e São Tomé, o rebanho que o Senhor nos confiou.

Inspirar-se em Zaqueu

Para tal, inspirámo-nos nesta passagem do Evangelho de Lucas, que relata o extraordinário e lindo acontecimento de salvação de um homem rico e chefe de publicanos, de nome Zaqueu. A sua experiência de vida e de aproximação na fé a Cristo Salvador pode iluminar a vida de todos os homens e mulheres, especialmente a vida dos nossos jovens. Propomo-la, portanto, como referência de sentimentos e de pensamentos que queremos partilhar convosco, amados jovens, e homens e mulheres de todas as idades.

O triênio pastoral sobre a Juventude

Na verdade, Nós, os Bispos da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé – CEAST, decidimos dedicar um triénio à nossa Juventude. Vamos fazer juntos este caminho trienal de reflexão pastoral sobre os jovens. Escolhemos como tema central: Jovem, quero ficar em tua casa (cfr. Lc 19, 5); e dividimos o triénio nos seguintes temas: 2017-2018: A Juventude e a Fé Recebida; 2018-2019: A Juventude e a Fé Celebrada; 2019-2020: A Juventude e a Fé Testemunhada.

Motivação do triênio

A decisão de falarmos dos jovens e para os jovens parte da convicção de que estes têm hoje uma urgente necessidade da palavra de orientação e de apoio, que deve vir de todos, sobretudo dos pais e responsáveis de famílias, das instituições sociais, estatais e eclesiásticas. Nisto, como Pastores chamados a «apascentar o rebanho de Deus que nos foi confiado» (1Pe 5, 2), sentimos o grave dever de fixar um olhar mais atento aos jovens, na esperança de que, se, por um lado, algumas manifestações estranhas e negativas protagonizadas pelas novas gerações parecem indicar um “futuro perdido ou perigoso”, por outro lado, soa bem alto a voz de Jesus que diz: «hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu é também filho de Abraão» (Lc 19, 9).

Faz bem falar com os jovens – afirmou o Papa Emérito Bento XVI (Discurso aos jovens, em Luanda, 21 de Março de 2009). A juventude é o futuro da nação e da Igreja. É, de facto, uma força e uma energia que não podem detonar como explosivos destruidores, mas sim como uma corrente que inova e transforma, garantindo um futuro autêntico, segundo Deus e conforme com o Seu projecto de humanidade. Os jovens são estudantes, pais de famílias, donas de casa, professores, operários, líderes de instituições civis e eclesiásticas, etc. São, enfim, os educadores de amanhã e os condutores de destinos e de vidas. Mas esta juventude, hoje mais do que nunca, vive directamente as transformações tecnológicas, sociais, económicas e políticas, e insere-se nela, ora como agente criativo, ora como vítima e presa fácil, com efeitos negativos para o projecto de adesão a Jesus Cristo.

Mais ainda, as nossas comunidades cristãs e vários movimentos apostólicos estão, felizmente, cheios de jovens dinâmicos e disponíveis e alguns ávidos, como Zaqueu, de ver Jesus e de seguir os Seus passos de salvação. Estes jovens tornam jovem a nossa Igreja e nos tornam jovens também a nós, seus Bispos. É uma alegria caminhar com eles na tarefa da evangelização, em busca do sentido da vida, que é Cristo Jesus. Eles oferecem-se em vários serviços, até ao ponto de doarem totalmente as suas vidas, como o testemunham os jovens seminaristas e as jovens aspirantes, que estão nos nossos seminários e casas de formação religiosas. Neste sentido, porém, desvendam-se os sucessos e insucessos da pastoral juvenil e conjuntural, quer ao nível das paróquias, quer ao das dioceses e nacional. De facto, a contraproposta que irrompe na existência de tantos, a partir dos caminhos da má vida, sugando e ofuscando a nobreza da sua alma, lança um forte desafio à nossa pastoral e à nossa maneira de ser Igreja junto dos jovens, crentes e não crentes.

1ª Tarefa: conhecer a realidade dos jovens

O objectivo principal do primeiro ano é conhecer a realidade do jovem de Angola e São Tomé, hoje, e a sua adesão à fé em Jesus Cristo. Neste ano, temos todos, Pastores e Fiéis em geral, o compromisso de conhecermos a fundo a realidade dos nossos jovens, fazer como que uma radiografia da juventude angolana e santomense, identificando os pontos determinantes da sua hodierna caracterização. Será compromisso particular dos próprios jovens, com a ajuda de todos, instituições, mormente eclesiásticas, e pessoas singulares, olhar de frente a sua realidade. Só assim poderão assumir, como Zaqueu, a pobreza de uma vida de pecados, mas pujante da semente da graça de Deus, que, em Jesus Cristo, quer “ficar em sua casa”, na casa do seu coração e da sua vida. Só assim “se quer ver Jesus”, “se recebe o convite da visita”, se realiza o encontro com Cristo, e a vida se transforma, começa de novo – PRIMEIRA PARTE.

2ª Tarefa: como evangelizar os jovens?

Entretanto, o empenho maior, neste primeiro ano sobre a Juventude, será rever o caminho que o jovem faz para se abrir à fé e se tornar discípulo de Jesus Cristo. Nesta tarefa de evangelização, devem empreender esforços de engajamento sério todos os baptizados, e os jovens em primeiro lugar, sobretudo as estruturas vocacionadas à pastoral juvenil e catequética. Indicamos, aqui, importantes linhas de orientação pastoral a ter em conta; aliás, elas estão em perfeita sintonia com a voz permanente da Igreja e com os nossos repetidos pronunciamentos pastorais. Uma preocupação a sublinhar é: como dirigir-se aos jovens que não têm fé? – SEGUNDA E TERCEIRA PARTES.

3ª Tarefa: necessidade de modelos

Conhecendo e assumindo a sua própria realidade, os jovens quererão naturalmente a autosuperação, ou melhor, sentirão o desejo de superar tudo aquilo que ensombra o brilho da vida e do futuro. Neste sentido, os jovens precisam de modelos autênticos, de que abundam as Sagradas Escrituras e a História da Igreja, inclusive a mais recente. A nossa Mensagem propõe-se também reportar exemplos de vida de homens e mulheres, que, encontrando Jesus Cristo, permaneceram jovens na alma. O Papa Emérito Bento XVI disse aos jovens angolanos, em Luanda: caminhar ao encontro do Senhor torna-nos mais jovens, porque nos aproximamos cada vez mais da única e verdadeira fonte donde brota a juventude, a novidade, a regeneração, a força da vida (21 de Março de 2009) – QUARTA PARTE.

I – REALIDADE DOS JOVENS HOJE – LUZES E SOMBRAS!

População jovem

Os jovens constituem a maioria das nossas populações. «Esta juventude é um dom e um tesouro de Deus, pelo qual a Igreja inteira se sente agradecida ao Senhor da vida» (cfr. Africae Munus, 60). São João Paulo II, falando aos jovens angolanos em 1992, afirmou: «Vós sois, sem dúvida, a maior e mais bela promessa de vida, dada pelo Senhor a esta nobre Nação. Viva a juventude angolana, tão rica de promessas e de esperanças»! Nós constatamos essa força criativa em vós, jovens, e fazemos nossas as palavras dos Papas. Uma força criativa e encorajadora que percebemos:

a) No trabalho do campo ou na Empresa
Admiramos a força e a crença que tantos jovens, em situações difíceis, demonstram para se superarem e construírem uma vida com futuro. Reconhecemos a coragem daqueles jovens de ambos os sexos quando não se deixam seduzir por falsas promessas que a cidade tantas vezes apresenta aos jovens, mas acreditam em si e procuram lutar, no dia a dia, por ideais nobres desde de as suas aldeias e vilas. De igual modo, reconhecemos com apreço o valor do trabalho sacrificado de tantos outros, que, prestando o seu serviço e conhecimentos nas empresas, embora nem sempre bem reconhecidos e remunerados, procuram superar-se, adquirindo, cada vez mais, conhecimentos técnicos e científicos que os ajudam a desempenhar bem as suas tarefas, assumindo o trabalho como um serviço à sociedade.

b) Na Escola e Universidade
Uma grande maioria dos nossos jovens é estudante. Tantos lutam contra adversidades de todo o tipo, para conseguirem alcançar os seus objectivos de uma melhor formação. Em muitos casos, superando o analfabetismo e, noutros, procurando atingir metas de formação universitária. Louvamos tantos outros que, não procedendo de famílias abastadas, lutam com tenacidade e perseverança para alcançarem os seus objectivos de uma formação superior, cujas propinas pagam a duras penas.

c) Em actividades informais
Nós, os bispos e, connosco, a sociedade, apercebemo-nos da quantidade de jovens que cirandam pelas ruas das grandes cidades, vendendo de tudo. Também esses mostram vontade de vencer. Estas actividades informais acabam por ser, na verdade, para muitos o único caminho que lhes resta para sobreviverem e, muitas vezes, realizam-no com profissionalismo, obtendo assim rendimentos para a sustentabilidade pessoal e da própria família e de uma vida digna, evitando caminhos de marginalização. Destaca-se, neste tipo de actividade, a valentia da mulher jovem, muitas analfabetas ou com escassa formação escolar; algumas vezes, mãe, a quem a coragem e determinação impele, filho à costas, à venda ambulante, vulgo «zunga», sendo esta a única porta que encontra para uma sobrevivência digna e moralmente aceitável.

d) Na família
Louvamos tantos jovens que constituem as suas famílias com responsabilidade, procurando ser bons pais e esposos, não cedendo às tentações de prazeres fáceis, de hedonismo, de comodismo, de individualismo propagandeado pelos meios de comunicação social, com conteúdos morais, não poucas vezes, questionáveis. Para muitos, a fé é a luz que os guia neste caminho.

e) Na Igreja
É com imensa alegria que constatamos, nos tempos que correm, marcados por uma forte tentação pelos bens materiais, os nossos seminários contam com muitos candidatos; as casas de formação religiosa continuam a ter muitos jovens a bater à porta, com vontade de responder «sim» ao chamamento do Senhor; os mosteiros de clausura estão cheios de monjas e candidatos não faltam. Deus continua a chamar e são muitos os que respondem “sim” a este chamamento. Esta realidade encoraja os bispos a acreditarem nos jovens e a continuarem a propor-lhes caminhos de consagração, na fidelidade ao projecto que Cristo tem para eles.

Contamos também com muitos grupos de jovens, dinâmicos e empenhados, nas nossas paróquias, o que é motivo para nós bispos de alegria e de esperança numa igreja sempre jovem e viva.

Inúmeras dificuldades

No entanto, uma parte ainda elevada da nossa juventude carece e padece. Estamos conscientes disto e muito preocupados. A lista de dificuldades dos jovens parece interminável; profundas são as feridas, triste e desolador é o quadro que atinge muitos deles mergulhados nos piores males da modernidade e da miséria. O analfabetismo, a ociosidade, a fome, a droga, o alcoolismo, a libertinagem, a promiscuidade, a poligamia, a crença na feitiçaria e toda a sorte de desvios dos valores humanos, culturais, morais e espirituais vão fazendo vítimas sem conta e sem controlo.

Falta de ideais

Mais grave ainda é observarmos jovens sem ideais, jovens conformados com a mediocridade, com a cultura da mentira e da corrupção, com o imediatismo e outros tantos lançados ao mundo do crime de vária natureza. Ainda em 1992, São João Paulo II falou de «falta de perspectivas para o futuro, nos estudos, no emprego digno, na habitação e em tantos outros sectores da vida do país». E a todas essas dificuldades, «vem juntar-se a tendência para o indiferentismo: a falta de ideais na vida. O desgaste e pressão a que uma parte da juventude esteve sujeita gerou uma ausência de motivações, o deixar-se levar, o não se incomodar. Então o único móbil é a vida fácil, o hedonismo. Como vidas sem futuro nem esperança, tantos jovens, sentindo-se inseguros de estar vivos amanhã, queimam a vida no momento presente: querem consumir toda a vida num minuto… Não sabem o que seja esperar para ver e crescer» (ibidem).

Tipologias juvenis

Na nossa acção pastoral, identificamos várias tipologias juvenis, cujas características devem ser sabidas e consideradas. Destacamos as seguintes (cfr. CEAST, Esquema de Pastoral Juvenil 1998):

Jovem do meio rural. Ainda vemos, em Angola e São Tomé, o jovem camponês. Vive num contexto familiar “saudável”; não aposta necessariamente na “instrução escolar”; com hábitos sólidos de trabalho, é capaz de desenvolver grandes sacrifícios para adquirir um bem, casa, transporte…; “reza” nalguma comunidade religiosa; com vista ao seu futuro, por regra, ou repetirá o ciclo de seus pais, ou emigrará para uma cidade tentar a sorte, “fazer dinheiro”, com intenção de voltarem o que raramente acontece. Um dos problemas, que afecta sobretudo as meninas, são as gravidezes precoces, com consequências tantas vezes dramáticas para o seu futuro. Esta situação leva muitas a interromper os seus estudos, a constituir família ainda adolescentes, etc. Constatamos também a exploração de jovens por empregadores sem escrúpulos que os levam a trabalhos forçados e não remunerados e, na pior das hipóteses, a serem maltratados, podendo mesmo sofrer agressões físicas.

Jovem da vila ou da pequena cidade. São factores determinantes, para este jovem, a localização da vila ou pequena cidade, a etnia predominante, o governo local e a maior ou menor incidência da instituição religiosa da zona. Este tipo de jovem é capaz de fazer juízo de valor em relação ao campo e à grande cidade; aprecia a família e o estudo; desenvolve algum tipo de trabalho e participa das instâncias políticas e religiosas com familiaridade; está próximo e cultiva as suas raízes culturais; formado na diáspora, consegue voltar à sua terra natal e trabalhar para o bem dos seus.

Jovem de grandes cidades em bairros periféricos. Filho de família vinda do interior, este jovem pretende “evoluir”, sair “do bairro”. Para isso, aposta no estudo e no primeiro emprego; às vezes, faz “biscatos”, venda ambulante ou nas praças; outras vias de escape, são o desporto e a música; vive habitualmente com a mãe ou com o avô (ou outro parente); gosta de participar de actividades religiosas, mas há quem fica acanhado e prefere integrar alguma seita “do ghetto”.

Jovem de grandes cidades em bairros populares. De família menos estruturada, este jovem “sente-se bem” no grupo de amigos da mesma rua; a rua é importante para ele, onde pratica o desporto, organiza festas, com ou sem motivo; entende que “não precisa de trabalhar”, conta com os pais; a escola não é suficientemente motivadora para uma “mudança social”; nas comunidades religiosas, este jovem mantém o “status quo” dos grupos e da pastoral juvenil; ganho o seu coração, pode dar muito de si.

Jovem de grandes cidades de classe abastada. Pode carecer da identidade de “família de casa”, da figura do pai ou da mãe, devido às distâncias, ocupações laborais e/ou “segundas relações; tem dificuldades de encontrar quem o escute, aconselhe, corrija; criança, que se torna adolescente e logo jovem, tendo como “encarregados” os “empregados de serviço”; vive em condomínio ou casa com tanta segurança e conforto que o convívio na rua é quase inexistente; educado em colégio privado caro, também pode estudar no exterior do país, já com pouca vontade de regressar; amiúde, não tem apreço pelo cultivo da vida espiritual, do sacrifício, da solidariedade; pode não conhecer o seu país de origem em profundidade, chegando a nem sequer suspeitar que existam bairros de lata ou que a cólera mate.

Jovem de “grandes cidades”, mas marginalizado. Habitante, “não cidadão” (como se não existisse); não tem documentos e fica difícil o acesso a serviços públicos; normalmente não estuda; geralmente, proveniente do interior, vem tentar a sorte; às vezes, integra-se num grupo, que o assume como “irmão”; pratica a venda ambulante, lava e cuida de carros; é roboteiro e chamador de táxis; o que ganha gasta no mesmo dia; recorre à droga e algumas jovens iniciam-se na prostituição, mas há quem não o faça e censure os outros; vive em lugares identificados com menor ou maior consentimento das autoridades públicas; mantém alguma relação com a família; demonstra capacidade de trabalho, embora inconstante; vive no grupo uma solidariedade apreciável, com códigos de convivência; crente à sua maneira.

Luzes e sombras desafiam a pastoral

O quadro social e humano acima descrito lança aos nossos olhos luzes que podem garantir a construção de uma sociedade melhor, mas também sombras que abalam ou desafiam as nossas estruturas humanas, sociais, familiares, políticas e religiosas. Como Igreja que somos, sentimo-nos desafiados pela realidade vivida pelos nossos jovens, e queremos uma pastoral juvenil que lhes aponte caminhos de futuro. O jovem precisa de se desenvolver, tem necessidade de exprimir o seu talento, mas, às vezes, o faz sem a devida formação, porque as estruturas de base carecem do suficiente nutrimento, carecem de metodologias consistentes e de condições essenciais. Tocando os vários eixos onde gravita visivelmente a vida dos jovens, neste paradoxo de luzes e sombras, urge a todo o baptizado ou baptizada e a todas as comunidades cristãs assumir, em primeira mão, a missão da evangelização que, como disse o Papa Paulo VI, é também sinónimo de desenvolvimento humano: evangelizar é promover o homem integralmente.

II – COMO O JOVEM CHEGA À FÉ EM CRISTO?

Juventude – uma fase da vida

Os adultos foram jovens, um dia! As crianças sê-lo-ão, um dia! Portanto, a juventude é uma fase da vida humana, caracterizante das sociedades de todos os tempos, e está profundamente concatenada com as gerações do passado e do futuro. É uma fase de ouro, de grandes interrogações, de opções fundamentais. A Igreja tem um lugar no âmbito do seu crescimento, procura marcá-la desde cedo com a sua presença, estimulando-a no sentido do compromisso missionário para a aventura da amizade sincera e profunda com Deus.

Consciência de ser criatura de Deus

No caminho da fé, o ponto de partida deve ser a consciência de o jovem ser “criatura de Deus”, “amado e querido por Deus”, “filho ou filha de Deus”. A sua vida tem uma história, ele tem uma origem e um fim. Não é de existência vazia, sem sentido, sem rumo. Ele tem uma dignidade. Ele pertence a Deus, é projecto de Deus. Por isso, como diz Santo Agostinho, «o nosso coração permanece inquieto, enquanto não repousa em Deus». Este mesmo Deus fala constantemente ao homem, e fala de várias maneiras (cfr. Heb 1, 1-2). Convida o homem a reconhecê-l’O nas suas criaturas e nos acontecimentos da história.

Urgência do anúncio

Claro está que esta consciência não se adquire automaticamente. Nenhum de nós fez sozinho a descoberta de Deus em Jesus Cristo. Passámos por contextos e processos, precisámos da presença dos outros, de pessoas e instituições, que participaram no nosso crescimento e desenvolvimento humano e espiritual. Sempre houve a necessidade e a urgência do anúncio. Há que anunciar! Alguém deve anunciar Jesus Cristo! Esta tarefa incumbe a todos os baptizados: “ai de mim se não evangelizar!”, diz o Apóstolo São Paulo (cfr. 1Cor 9, 16).

Uma Igreja em saída

Jesus Cristo ia ao encontro das multidões. Ele foi à casa de Lázaro, de fariseus e publicanos, entrou na casa de Zaqueu. A atitude fundamental da comunidade cristã deve ser a de “sair”, a de “ir ao encontro” de todos, a de “estar presente” em todos os ambientes humanos, sejam eles do centro ou da periferia. É a recomendação do Papa Francisco: “sermos uma Igreja missionária, uma Igreja em saída”, que se desinstale e tenha a coragem de visitar as hodiernas periferias humanas, os novos areópagos da cultura moderna e os ambientes mais ousados e desafiadores (cfr. Evangelii gaudium, 15. 20-33). O nosso último triénio sobre a Evangelização quis precisamente empenhar a todos os nossos fiéis nesta obra prioritária da Igreja: clérigos e leigos enraizados em Cristo; paróquia, centro da evangelização.

Acolhimento e escuta

Tal como Zaqueu, os nossos jovens precisam de ser acolhidos e escutados. Eles têm muitas coisas a dizer aos adultos, aos pais, aos educadores, aos mais velhos. Precisam de quem lhes indique o caminho, lhes esclareça dúvidas, os oriente, os conforte quando vacilam. Podem parecer que fogem, mas, uma vez encontrados, o seu coração abre-se extraordinariamente a Deus.

Dialogar com os jovens

Estabelece-se um diálogo natural. Nele, despontam as perguntas existenciais que apelam para o sentido da vida: Quem sou eu? Donde venho? Para onde vou? Que sentido tem a minha vida? A partir da sua realidade concreta, o jovem é ajudado a descobrir o seu projecto de vida e a realizá-lo com alegria, abrindo-se ao encontro com Deus e com os homens. É-lhe apresentado Jesus Cristo como o modelo de vida a seguir. A proposta do Evangelho – a Boa Nova de Jesus Cristo – é comunicada não como simples transmissão de conhecimentos, mas como resposta às grandes questões que os jovens colocam.

A Palavra de Deus ilumina

Como Bispos, estamos convencidos de que a Palavra de Deus é centro de inspiração da alma jovem. Esta Palavra não é apenas uma mensagem inteligível à mente humana, mas uma realidade dinâmica, um poder que opera infalivelmente os efeitos visados por Deus (cfr. Jos 21, 45; 1 Rs 8, 56); ela produz sempre aquilo que anuncia (cfr. Is 55, 10ss). Esta Palavra é a Pessoa de Jesus Cristo, o eterno jovem, a resposta inequívoca às inquietações mais profundas do ser humano. Vale a pena referir as palavras de Bento XVI: “queridos jovens, exorto-vos a adquirir familiaridade com a Bíblia, a conservá-la ao alcance da mão, a fim de que ela seja para vós uma bússola que indica o caminho a seguir» (Mensagem da XXIª Jornada Mundial da Juventude, 9 d Abril de 2006). A Palavra suscita a fé e encaminha o jovem para a vivência dos sacramentos.

III – ESTRUTURAS DE MEDIAÇÃO E SEUS DESAFIOS

Necessidade das estruturas de mediação

Todo este movimento do despertar da fé precisa de ser enraizado, desde cedo, nas estruturas de socialização e de mediação, como sejam: a família enquanto igreja doméstica; a comunidade cristã, que educa à fé e instrui na catequese; a escola enquanto oficina de valores, mormente a escola católica; os grupos e movimentos apostólicos, onde se aprofunda o itinerário de vida cristã e se participa mais activamente na vida e na Liturgia da Igreja; o serviço da caridade na perspectiva do voluntariado ou, simplesmente, da vivência do mandamento do amor; a prática do desporto como expressão de comunhão, de lazer e de aceitação do outro e das diferenças; a música como espaço de elevação do espírito e veículo de valores. Por fim, não se descure o testemunho de vida das pessoas adultas, desde os sacerdotes, religiosos e religiosas, aos leigos e leigas, numa clara demonstração da unidade e coerência entre fé e vida.

Desafio de estruturas adequadas

Se, por um lado, sentimos a alegria do jovem que se aproxima de Deus ou a tristeza daquele que ainda O não conhece, por outro lado, temos a enfrentar a falta de estruturas adequadas para o devido acompanhamento e desenvolvimento da fé recebida. Será, pois, a consciência cristã de todos, Pastores e Fiéis em geral, a criar e a aperfeiçoar sempre mais o melhor o ambiente onde a fé nasça, cresça, se robusteça e produza frutos abundantes. Este ambiente começa nas famílias verdadeiramente cristãs e evangelizadoras, com destaque para o papel de educadores na fé dos pais; empenha crianças e adultos na escola, onde a transmissão de conhecimentos científicos se enobrece com a formação humana e espiritual; empenha os próprios jovens que, tendo já encontrado Cristo, O apresentam e partilham com os demais coetâneos em lugares profissionais, de associativismo, de amizade, do desporto e da música, do exercício da política e da cidadania, etc. Empenha, finalmente, a própria Igreja nas suas estruturas físicas e humanas.

Desafio dos métodos

Reconhecemos a importância dos métodos psico-pedagógicos a utilizar no processo de abertura à fé e de amadurecimento na fé. Sentimos a urgência de um trabalho sistemático, que saiba recolher e dispor convenientemente a riqueza de conteúdo e de experiência da Igreja na pastoral juvenil. Tomamos boa nota dos esforços que os agentes deste tipo de pastoral levam a cabo nas nossas Dioceses. Mas julgamos que muito há ainda a fazer. As dificuldades materiais e económicas não deveriam inibir a criatividade e a capacidade de fazer o melhor que se pode. Certamente, impõem-se os cursos de formação de líderes e de animadores juvenis. Precisa-se, de igual modo, de maior disponibilidade, de acurado sentido de pertença e de entrega por parte dos jovens mais experimentados no caminho da fé.

Desafio das etapas da caminhada na fé

O itinerário de crescimento na adesão à fé obedece a etapas, que devem ficar claramente delineadas. O catecumenado já traça um processo de vida na fé bastante sólido. Tudo só dependerá da seriedade com que ele é implementado. No entanto, a vida cristã, que não pode prescindir da dinâmica sacramentária, vai muito além dos sacramentos de Iniciação cristã e deve transformar-se num projecto de vida adulta, que compromete a pessoa por toda a vida, dentro da Igreja e dentro da sociedade. Na verdade, a vida matrimonial, de consagração religiosa ou sacerdotal é um prolongamento e corolário da semente cristã que, desabrochada, se foi desenvolvendo. Quais e em que gradualidade de etapas os jovens são inseridos?

Desafio do acompanhamento pastoral

Colocamos também a questão, deveras séria do acompanhamento pastoral dos jovens nas nossas comunidades e paróquias. Reconhecemos o empenho de muitos sacerdotes, religiosos e religiosas, bem como líderes de movimentos apostólicos e de novas realidades eclesiais, no acompanhamento aos jovens. Mas, constatamos também a escassez de pessoal missionário, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e leigas competentes e de agentes pastorais que vão ao encontro dos jovens que estão longe ou fora das comunidades cristãs. A responsabilidade de acompanhar um irmão ou uma irmã na fé deve comprometer a todos, mas particularmente os sacerdotes com responsabilidades paroquiais. O papel dos líderes jovens é também fundamental. Neste sentido, desafiamos as comissões paroquiais, diocesanas e nacional da Juventude e outros grupos juvenis, bem como pessoas peritas em aspectos antropológicos e sociológicos, a progredir, connosco, nos esforços de elaboração de um observatório, que saiba recolher, diagnosticar e direcionar para possíveis soluções as problemáticas hodiernas dos jovens.

IV – MODELOS E REFERÊNCIAS DE FÉ

A fé deve ser mantida

A fé, uma vez recebida, deve ser mantida, porque ela passa a iluminar a vida, ou melhor, ela torna-se um estilo de vida. Infelizmente, há quem fez a experiência do encontro com Deus, mas que, por razões várias, não produziu os frutos esperados para si e para os outros. Tristemente, observamos cristãos que eram fervorosos nas nossas comunidades e que, hoje, se lançaram para as seitas ou outras formas de manifestação religiosa não consentâneas com as sãs tradições. A parábola do semeador é suficientemente esclarecedora (cfr. Mc 4, 1-20). Não basta, portanto, aderir à fé, há que mantê-la, alimentá-la, dar-lhe razões do seu significado, senão corre-se o risco de perdê-la.

Os jovens precisam de modelos

Os jovens precisam de modelos e de referências que, infelizmente, escasseiam na nossa sociedade e são substituídos por péssimos exemplos, muitos deles identificados entre os próprios jovens. Os jovens não precisam de muitas palavras, mas de atitudes; não tanto de conselhos, mas de modelos; não de muitas normas, mas de pessoas que os atraiam com o seu exemplo de vida virtuosa. Com elevada intuição afirmou o Papa Paulo VI: “o mundo precisa mais de testemunhas do que de mestres”. As palavras voam e os exemplos arrastam!

Modelos nas Sagradas Escrituras

As páginas das Escrituras Santas estão recheadas de nobres exemplos de pessoas que, como nós, tiveram o privilégio do encontro na fé com Deus e se mantiveram fiéis até ao fim. São homens e mulheres que, vivendo as mesmas situações que nós – e, quiçá, até mais dramáticas – não se perderam na falta de fé, não se diluíram no desespero, não se esterilizaram na ausência do amor dado e recebido, antes pelo contrário, elevaram ao grau heroico a vivência dos seus compromissos de fé. Assim, temos:
– Abraão, o pai de todos os crentes, a que a Epístola aos Hebreus dedica um lindo elogio (cfr. Heb 11, 8).

– A experiência do profeta Jeremias, que começa na sua mocidade; ele sente-se demasiado jovem, mas confia em Deus que o chama e colocará a sua vida à disposição da missão divina; passará por inúmeras dificuldades, será muito incompreendido, mas manter-se-á fiel à palavra de Quem o guia e assiste.

– Maria Santíssima, Mãe de Deus e dos homens, realiza, de modo mais perfeito, a “obediência da fé”; na fé, Maria acolheu o anúncio divino pelo Anjo Gabriel, acreditou que a Deus nada é impossível (Lc 1, 37) e deu o seu assentimento: «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Isabel saudou-a: «Feliz aquela que acreditou no cumprimento de quanto foi dito da parte do Senhor» (Lc 1, 45).

– E, finalmente, o exemplo de Zaqueu, que nos mostra que quem se encontra com a Palavra, muda de vida. Com Deus, nada está totalmente perdido!

Referências de fé na vida da Igreja

Desde os primórdios da Igreja, encontramos exemplos exímios de seguimento de Cristo. De facto, muito cedo a Igreja se encheu de mártires e viu-se reflorescer pelo sangue destes homens e mulheres gloriosos. Mais tarde, Agostinho de Hipona (354-430) saiu de uma juventude conturbada moral e intelectualmente e, tornado cristão, ficou profunda e definitivamente marcado por Cristo e pela sua Igreja. Ainda no nosso continente, e já no século XIX, emerge uma mulher sudanesa, Josefina Margarida Bakhita, que fez da sua condição de escrava um emblema de libertação em Jesus Cristo.

O compromisso na vida cristã

31. Queridos jovens, estes modelos – a cujas vidas recomendamos uma leitura mais aprofundada – dizem o quanto é possível o vosso caminho de discípulos. Não há circunstâncias que justifiquem o abandono da fé ou o não abeirar-se dela. Pergunta o Apóstolo Paulo: «Quem nos separará do amor de Cristo?» (Rm 8, 35). A fé recebida só será verdadeira, se se fizer presente em todos os âmbitos da vida, de forma a provocar uma mudança radical na pessoa. Zaqueu recebeu a novidade de Jesus Cristo e nunca mais permaneceu a mesma pessoa. Imediatamente se predispôs a restituir qualquer bem extorquido aos pobres e a doar-se inteiramente à missão do Mestre. Sim, Zaqueu passou a viver o caminho novo de Jesus. De vós jovens, esperamos uma vida comprometida com Cristo e a Igreja, assumindo um autêntico discernimento vocacional, para o matrimónio ou para a vida de consagração total a Deus, na profissão dos conselhos evangélicos da obediência, castidade e pobreza, ou para a vida sacerdotal.

CONCLUSÃO

Jovem, quero ficar em tua casa

Jovem amado no Senhor, abre o teu coração a Cristo, que te diz: «quero ficar em tua casa» (Lc 9, 5). Cristo quer entrar na tua vida diária, mores na periferia ou na aldeia, no bairro ou nas grandes cidades; sejas jovem universitário ou não, trabalhador ou desempregado. Cristo fala para ti, jovem, que vendes na praça ou na rua, que foste esquecido pela sociedade… Cristo é o amigo fiel!

Apelo à comunidade cristã

Apelamos às nossas comunidades cristãs e a todos os agentes de pastoral juvenil para que prestem maior atenção e paciência ao processo de educação na fé de muitos adolescentes e jovens que batem às portas da nossa Igreja ou que simplesmente passam diante dela sem que alguém os convide. Tenhamos a coragem de ir ao encontro daqueles jovens como que ociosos, “à espera que alguém os contrate”.

Jovens, não tenhais medo de decisões definitivas!

Muito amados jovens, fazemos nossas as palavras do Papa emérito Bento XVI: «não tenhais medo de tomar decisões definitivas. Generosidade não vos falta – eu sei! –, mas, perante o risco de se comprometer para uma vida inteira, quer no matrimónio quer numa vida de especial consagração, sentis medo: «O mundo vive em contínuo movimento e a vida está cheia de possibilidades. Poderei eu dispor agora da minha vida inteira, ignorando os imprevistos que me reserva? Não será que eu, com uma decisão definitiva, jogo a minha liberdade e me prendo com as minhas próprias mãos?» Tais são as dúvidas que vos assaltam e que a actual cultura individualista e hedonista aviva. Mas quando o jovem não se decide, corre o risco de ficar uma eterna criança! (Bento XVI). E mais ainda: «Quem faz entrar Cristo na sua vida, nada perde, nada – absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande… Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, Ele dá tudo. Quem se entrega a Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira» (Bento XVI, in Africae Munus, 64).

Invocação final

O Divino Espírito Santo abra os olhos dos vossos corações e ilumine as vossas almas! Maria Santíssima, a Mulher de alma sempre jovem, mãe de Cristo o Verbo Encarnado e padroeiro da juventude, interceda por vós! Amen.

Luanda, 16 de Outubro de 2017

Os Bispos de Angola e São Tomé e Príncipe – CEAST